Na abertura do Seminário Nacional NTU 2026, lideranças relacionaram modernização do serviço, empregos, tecnologia e competitividade à necessidade de fontes estáveis de custeio, com foco no passageiro
A criação de uma política permanente de financiamento para o transporte público coletivo foi apontada, no Seminário Nacional NTU 2026, como condição para melhorar a qualidade do serviço oferecido ao passageiro, renovar a frota e preservar a capacidade tecnológica e produtiva da indústria brasileira de ônibus. O tema foi debatido na abertura do evento, que ocorreu nesta terça-feira (11) e segue até o dia 13 de agosto no São Paulo Expo.
Representantes da indústria, operadores, gestores públicos e instituições de financiamento convergiram sobre a necessidade de dar previsibilidade aos investimentos. A preocupação com o avanço de fabricantes estrangeiros apareceu associada à defesa de condições equilibradas de competição, dos empregos qualificados e do conhecimento técnico desenvolvido no país — sem oposição à inovação ou à presença de novos participantes no mercado.
A discussão está conectada ao objetivo central da NTU, que é garantir um transporte mais acessível, confiável, seguro e sustentável para a sociedade brasileira. O setor atende 34 milhões de passageiros por dia em 2.962 municípios e opera aproximadamente 107 mil ônibus urbanos. Hoje, 80% do financiamento do serviço ainda está concentrado na tarifa paga pelo usuário.
“Não estamos aqui para pedir socorro. Estamos aqui para apresentar uma proposta”, afirmou Edmundo Pinheiro, presidente do Conselho Diretor da NTU. Em sua fala, Edmundo apresentou o programa Transporte para Todos, proposta que busca reorganizar recursos já existentes, sem criar novos impostos, para assegurar fontes permanentes de custeio.
Segundo ele, o Marco Legal do Transporte Público Coletivo, sancionado no primeiro semestre deste ano, abriu um novo caminho ao separar a tarifa cobrada do passageiro da remuneração do serviço, mas a transformação da realidade dependerá das decisões tomadas a partir dessa nova base jurídica.
O Transporte para Todos está estruturado na modernização do vale-transporte do trabalhador, em um modelo mais equilibrado para financiar gratuidades e na criação do vale-transporte social para famílias vulneráveis. A diretriz é associar recursos públicos à qualidade, eficiência, transparência e a benefícios verificáveis pelo cidadão.
Competitividade e capacidade produtiva
O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet, afirmou que o país precisa combinar renovação da frota e descarbonização com a preservação da engenharia e da capacidade produtiva instaladas no Brasil. Em sua avaliação, fabricantes estrangeiros avançam no mercado nacional e em países vizinhos que historicamente compravam veículos produzidos no Brasil.
“Preservar a nossa engenharia e a nossa capacidade produtiva diante dessa concorrência não é resistência à mudança. É a defesa dos empregos qualificados e de um conhecimento técnico que os fabricantes instalados no Brasil levaram 70 anos para construir”, disse Calvet.
Rubem Bisi, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus), também defendeu programas consistentes e sustentáveis para financiar a atualização tecnológica do transporte coletivo. Para ele, é necessário estabelecer condições equilibradas de competição para uma indústria que gera empregos, arrecada tributos, desenvolve soluções de baixa emissão e exporta veículos e tecnologia.
O diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, proferiu a palestra master do evento e relacionou o apoio para a compra de ônibus à geração de empregos, ao desenvolvimento tecnológico e ao fortalecimento da produção no país. Ele destacou que o banco pode atuar no financiamento, na concessão de garantias, na preparação de projetos e na coordenação de investimentos de longo prazo. “O transporte urbano pode ser o grande vetor de investimento nos próximos anos, porque precisamos transformar nossas cidades para que sejam mais inclusivas e sustentáveis.”, explicou Barbosa.
Mobilidade como nova fronteira de investimentos
O ministro das Cidades, Antônio Vladimir Moura Lima, classificou a mobilidade urbana como uma nova fronteira de investimentos e ressaltou que a modernização precisa reunir União, estados, municípios e setor produtivo. O ministro associou infraestrutura, renovação de frota, descarbonização e segurança jurídica à melhoria efetiva da vida nas cidades.
“Precisamos unir esforços, com todos os atores públicos e privados, para levar transporte público com qualidade, conforto e segurança e atender cada vez melhor as necessidades da população brasileira”, afirmou o ministro.
O prefeito de Goiânia e presidente da Comissão de Mobilidade Urbana da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos, Sandro Mabel, apresentou iniciativas adotadas na capital goiana para dar prioridade ao ônibus, reduzir o tempo das viagens e integrar frota, terminais, pontos de parada, informação ao passageiro e gestão do tráfego. Ele defendeu a participação do poder público no financiamento e afirmou que a qualidade dos serviços resulta do conjunto do sistema, não apenas da compra de veículos novos.
Reconhecimento a contribuições para o transporte coletivo
Ao final da cerimônia de abertura, a NTU homenageou Sandro Mabel e Denis Andia, ex-secretário nacional de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades. Mabel foi reconhecido pela liderança na implantação da nova Rede Metropolitana de Transporte Coletivo de Goiânia e por sua contribuição ao fortalecimento do transporte público. Andia recebeu a homenagem por sua atuação na Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana entre 2023 e 2026 e pela participação na construção do Marco Legal do Transporte Público Coletivo.
Francisco Christovam, diretor-presidente da NTU, afirmou que os dois homenageados conhecem os desafios do transporte público e contribuem, de diferentes maneiras, para transformar propostas em resultados para as cidades e para quem depende do serviço diariamente.